Você nunca me amará. Eu não existo. Sou o personagem dentro do personagem e estou fascinada demais com o mundo do qual tenho absoluto controle para me atrever a sair. Você nunca me amará porque eu não sou. Eu penso. E tu teres vindo me machuca, porque é apenas uma amostra do que não posso ter todos os dias e do que ando perdendo sem você ao meu lado. Deste um tapa e lateja até agora a dor do que não perdi. Nunca tive. Não sei viver. É como digitar neste teclado. O ato já condicionado me permite fazê-lo sem olhar para as letras já apagadas; mas quando o faço pareço insegura, esperando que o erro inevitável logo chegue. Não chega. E desabo em lágrimas e só então percebo que meu corpo me deixa fraca, porque meu coração já está falecendo. Meu coração debilita meu corpo porque já não consegue lidar com tanto sofrimento sozinho. Eis a explicação da doença que me deixa de cama, pela contagem, já há três dias. E não passa. Meu medo é de que nunca chegue a passar. E tomo banhos e mais banhos tentando limpá-lo de mim. Não consigo. Parece que nunca é suficiente. E a música que já era nossa sem nem mesmo você saber, ah, agora a odeio. E tu não tens a mínima noção da roubada em que te meteste. Não sou das melhores a mais perfeita. Estou longe da perfeição. E me recomponho. Limpo as lágrimas que na verdade nunca me sujaram. Varrem a tristeza para fora de mim. Em um minuto, já estou melhor. Respiro fundo e viro a página, embora a trama nunca mude. Sei que não vens nesse exato instante, porque é quando mais te quero ao meu lado que desapareces assim. E tu alegras meu dia como a minha canção favorita. Queria te agradecer, coisa que nunca fiz. Confesso. Sempre desvalorizei o que significas para mim, mas torno agora palpável a declaração: és uma das únicas pessoas nessa vida com quem realmente posso contar fora da minha família. Não sei se o valor é justo. Talvez não tamanho. Por que conténs a lágrima que percorre meu rosto? Deixe que invada. Não queres que fique visível a mágoa que provocaste em mim? Limpar minhas lágrimas não esconderá a dor. Sei que tenho que acordar amanhã e seguir o roteiro de todos os meus dias. Já estou conformada. Um dia tudo há de mudar. Essa fase árdua é apenas transição para a época inesquecível de minha vida. Mas por enquanto ir dormir sem um estímulo maior torna impossível minha resignação. Preciso de um ar novo. Não há mais fôlego por aqui. Quero alguém que não parta, o que é impossível. Eles sempre partem. Nós também.
e você me ligou nos acréscimos do segundo tempo, eu já estava quase dormindo, mas valeu porque você me deu o fôlego que eu tanto precisava naquela noite de quinta, quando escrevi esse texto. Você não sabia, mas acordei na manhã de sexta mais determinada, por tua causa, para ver você, você que eu nunca mais verei. Um dia depois e você já não estava mais entre a gente. Já havia nos deixado nesse mundo cinza, que é assim sem você nele. Sábado só restou eu e as lágrimas da ferida aberta que tua morte provocou em mim. LUTO. Nunca haverá carnaval mais triste. Você faz parte de uma estatística agora. Acidentes de carnaval. Ainda não existo nesses dias para externar o que aconteceu. DOR. NEGAÇÃO. Não acredito que nunca mais te verei, meu querido amor. Teus beijos já se eternizaram em mim. DOR. PARTIR. O que eu faço agora sem você aqui?
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Matei meu anjo essa noite e em meus pesadelos diários eu voltaria a repetir o mesmo ato por semanas. Não houve dor ao arrancar as penas de suas asas, no entanto houve intenso pesar dentro de mim. Ele não voará mais ao meu redor, protegendo-me dos males do mundo. Não ouvirei seus cantos ou sentirei seu doce perfume. Sua energia vital já havia partido. Ele já não era mais o mesmo. Seus olhos, cegos. Sua pele, deteriorada. Era apenas seu corpo preso ainda a esse mundo, mas doeu ainda assim. Esperei seu último suspiro, como se fosse o meu último também. Observei seu peito subir e descer devagar, perdendo aos poucos a imensa força que sempre teve. Sempre tão forte, meu doce anjo! Eu o assassinei para livrá-lo da dor. Só não contava com a minha própria. Eu lhe amava muito e sinto culpa agora. A culpa do "se" instalou-se em mim. "Se" tivesse sido diferente, você ainda estaria entre nós? Protegendo-me como sempre fez? A terra depositada sobre seu corpo foi irrigada por minhas lágrimas salgadas. Eu chorava pelo pedacinho de meu coração enterrado junto de meu anjo protetor. Sal da culpa e do amor perdido. E a sólida rocha que permanecia ao meu lado se rachou. Nada é eterno, pedra rochosa, e ninguém dura para sempre em vida. Nem mesmo os querubins. Desculpa se falhei com você, meu querido querubim. Apenas um último adeus neste momento fúnebre. Digo-lhe sinceramente, esperando que possas ouvir, esteja onde estiver:
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- Eu te amei muito, anjo meu.
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13:30