Apenas por pessoas de alma já formada

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Submersa

Espero um elevador que não vem. Demora demais. Não aguento a espera, então pego as escadas. Desço correndo os degraus entre o sexto e o primeiro andar. "Boa tarde!", digo ao porteiro. "Boa tarde, senhorita!", ele me responde de volta. Quando coloco os pés para fora do prédio percebo que começa lentamente a chover. "Droga!", eu digo a mim mesma, puxando o capuz de meu salvador: o casaco que minha mãe insistiu que eu colocasse. "Que frio!", reclamo sozinha, grata à preocupação exagerada de minha mãe. Automaticamente ponho as mãos dentro dos bolsos de meu salvador e atravesso a avenida. O mar parece agitado. O mp3 está devidamente coberto. Não será danificado pela chuva mesmo que ela se intensifique. Então, começo. Faço o que sempre me ajuda a fugir do mundo. Corro. Sozinha graças à chuva que há pouco começou. Ao menos disso não posso reclamar. Preferia estar o mais sozinha possível, sem o risco de encontrar quem quer que fosse para atrapalhar minha solidão. Já havia me alongado o suficiente em casa (prefiro me alongar em casa), então, sem receio, começo. Um, dois, três, quatro... Conto metalmente o ritmo de meus passos corridos e aos poucos meus pensamentos se perdem na contagem. Vagam para bem longe dali. A música parece não ser distração suficiente. Meus pensamentos insistem em correr para o mesmo assunto. Aquele de ontem, de hoje, de sempre: você. Seu rosto vem à minha mente e meu coração acelera ainda mais. A corrida passa a não ser mais sozinha o motivo de meu acelerado batimento cardíaco. Inspira, expira, inspira, expira. Meu Deus, é apenas um pensamento. Ele não está aqui realmente. Acalma coração! Inspira, expira, inspira, expira. Um, dois, três, quatro... dez... vinte... trinta... Volto à contagem, mas, de repente... o que é isso? Meus pensamentos se perdem novamente. Meu rosto está úmido?! Tenho certeza de que não devia estar assim. Quase não transpiro, porque a brisa fria me impede. No entanto, ainda assim, sinto água em meu rosto. O capuz de meu casaco parece não estar sendo suficiente. A música em meu mp3 muda para uma mais lenta e, então, percebo. Não é a água da chuva, nem meu suor, e, sim, as lágrimas de meu choro, abafado pela música de meu mp3, que molham meu rosto. Ah, a saudade! É por isso que agora choro. Tanto tempo se passou, mas ainda sinto sua falta, meu amor. Se você não estivesse longe, com certeza, estaria ao meu lado, agora, com aquele sorriso que sempre iluminou meu dia, contando de certo uma daquelas piadas bobas que eu sempre odiei ouvir. Mas agora até delas eu sinto falta, porque tudo em ti, porque tudo que você fazia ou dizia me provoca uma falta danada. Como eu sinto tua falta, meu amor. Sei que estou sendo repetitiva. A corrida definitivamente não está surtindo o efeito desejado. Eu não consigo parar de pensar em você. Ainda não superei a nossa separação. Dói menos, é claro. O tempo tem desses truques. Faz a gente se acostumar com a dor. Essa dor que nos últimos meses foi minha companhia constante. Essa dor que já me trouxe tantas lágrimas... Desisto! Abandono o calçadão e corro em direção à praia. Desligo o mp3. Tiro os fones de ouvido. O barulho das ondas misturado com o da chuva e do vento frio é bem melhor que as músicas de meu mp3. Correr na beira da praia é bem melhor que no calçadão também. Um, dois, três, quatro... dez... vinte... De repente, paro para fitar o mar. O sol estaria se pondo no horizonte agora, se o dia não estivesse tão nublado. Olho ao meu redor. Tão poucos na praia. Então a ideia. "Eu não posso fazer isso", digo a mim mesma, tentando reprimir o impulso. Vai me causar um resfriado de certo. Tiro o casaco junto com o mp3. Ele, o mar, me chama. Não consigo ignorar. O vento cessa. O mar se acalma. É um convite. Nada mais penso. Apenas tiro meu tênis e minha calça de corrida. Eu estou de biquini por baixo, mas não tiro a camiseta, apenas a calça e entro. Água fria. Fria demais. Mas com o tempo o corpo se acostuma com a temperatura baixa. Posso quase ouvir os berros de minha mãe ao ver essa cena. Posso quase ouvir os seus risos, meu amor, orgulhoso de minha ousadia. E agora eu posso quase ver minha libertação um dia. O por do sol se mostra fraco no meio de tantas nuvens. Eu, por fim, fujo. Eu não sou eu. Eu sou apenas uma garota no mar observando o sol se por. Sem sofrimento, sem dor, sem amor. Eu não sou eu. Eu sou a flor que insiste em florescer em meio ao estrume. Eu sou o por do sol em meio às nuvens de um dia nublado. Eu fui a garota que morreu afogada admirando um por do sol que não existia. Eu não sou mais. Eu apenas fui. Fui o que jamais vou ser novamente. Eu não nadei. Não tentei. Eu simplesmente desisti. Quando a correnteza é forte demais, fica difícil achar um caminho de volta. Eu não dei "adeus". Eu simplesmente sumi.
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posted by mente inconstante at 10:00

10 Comments:

Muito bonito isso. Parece final de filme, e não de novela.
A playlist presente aqui fez trilha sonora com uma música: Dogs, Pink Floyd.
Ficou maravilhoso.
Li prazerosamente.
Sorte a minha de poder ter contato com essa tua linda forma de escrever. Momentos únicos.

=*

13 de outubro de 2009 11:25  

Que texto intenso, e com um final supreendente. Gostei muito, Vanessa. Me identifiquei demais com ele.
beijos

13 de outubro de 2009 12:51  

Nossa gostei muitoo...
a leitura se transformou em filme na minha mente...
lindoo!!

Beijoos

13 de outubro de 2009 13:02  

Vaneeeeeessa, minha amiga, adorei esse teu conto.
Intenso, toca a gente profundamente.
Nossa, demais mesmo.
A cada dia que passa, você nós surpreende mais e mais.
Parabéns!

Beijo! ♥

13 de outubro de 2009 13:49  

Vanessa pensei que nunca iria falar isso,mas amei ter lido uma biblia dessas.Cara tu escreve muito,senti tanta falta dos seus texto,mas vc esqueceu dá proposta né?!sabia que ia esquecer buá
bjo

13 de outubro de 2009 18:21  

Realmente lindo, principalmente a parte da corrida em que ela pensa estar só e ele aparece em seus pensamentos.
Me identifiquei bastante com essa parte.

14 de outubro de 2009 09:15  

Perfeito!! *-*
Parece muito comigo no momento! SHUHSUH
Beijos.

14 de outubro de 2009 12:53  

Este comentário foi removido pelo autor.

14 de outubro de 2009 15:06  

Ai adorei demais.
Lindo o texto.. e a chuva lava a alma muitas vezes e o mar então..

Beijos!

14 de outubro de 2009 15:08  

surpreendente.

11 de novembro de 2009 11:41  

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