Apenas por pessoas de alma já formada

sábado, 9 de janeiro de 2010

Toc-toc-toc

Mais uma tarde solitária. Desde que nós terminamos, todas minhas tardes, por mais que estivesse acompanhada, eram solitárias a mim. Ele não estava mais comigo. Ouço um barulho na porta. Alguém a bateu. Eu a abri.
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- Será que a gente podia conversar? – era ele. Aquele com quem eu havia terminado.
- Ahn, claro. – a resposta foi automática. Eu permiti sua entrada, tão surpresa que não tive tempo sequer de pensar a respeito. Seria a melhor hora para conversarmos? Meu cabelo preso desproporcionalmente. Eu vestia uma de suas camisetas. Aquela que eu adorava tanto. Droga! Eu não aguentaria se ele a pedisse de volta.
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Ele entrou. Minhas pernas tremiam sem eu sequer perceber. Era melhor achar um jeito rápido de nos fazer sentar.
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- Você está sozinha? – ele me perguntou. Eu acenei, dizendo silenciosamente que sim. Ele, então, sentou no sofá. Ufa! Que alívio. Eu sentei também. Não sabia se aguentaria muito tempo em pé. Eu estava nervosa demais para permanecer ereta por mais tempo.
- Então, sobre o que você quer conversar? – eu fui direta demais. Não foi minha intenção. Eu estava tão nervosa que não conseguia controlar nenhuma palavra que saía da minha boca. E aquela roupa? Não deveria estar assim. Nosso primeiro reencontro, desde que terminamos, e eu estava parecendo um moleque desleixado. Por que eu não estava vestida melhor?
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Minhas pernas ainda tremiam, mesmo sentada. Cruzei-as. Ele pareceu nem notar. Seus olhos estavam concentrados demais em algum ponto no chão.
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- Vi Antes do Por do Sol um dia desses. Lembrei de você.
- Você viu Antes do Por do Sol?? – eu perguntei em tom de descrença.
- Bem, eu vi que estava passando, mas logo mudei de canal. Você sabe muito bem que eu não gosto daquele filme. Aliás, até hoje eu não consigo entender como você pode gostar daquele blá-blá-blá sem fim.
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Eu revirei os olhos.
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- Você não veio aqui para conversar sobre meu "péssimo" gosto para filmes.
- Não, não vim. – ele admitiu, por fim. Parecia tão nervoso quanto eu. Talvez, fosse apenas impressão. Por que estaria tão nervoso quanto eu?? – Cortinas novas? – ele me perguntou quebrando o silêncio.
- Acho que sim. – eu respondi. – Ou talvez não. Sei lá, você sabe como a minha mãe é obcecada por cortinas e toalhas de mesa. Todas são novas para mim e talvez nem sejam. – como eu era distraída até em minha própria casa.
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Mas, parada naquela sala, percebi que nos dezesseis meses que passamos juntos jamais havíamos sentado ali. Era da porta da entrada direto para o quarto. Nunca para a sala de estar. Como ele podia ter percebido as cortinas novas, então? E aquela distância? Por que ele não chega mais perto? Acho que não vou aguentar.
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- Você está bem? – ele me perguntou. Eu queria ter respondido que não, que sentia sua falta e que o buraco que sua ausência havia feito em mim me puxava para um marasmo sem fim.
- Sim, eu estou bem. – mas não foi o que eu disse. Orgulho falou mais alto.
- Eu sinto sua falta. – ele disse tímido.
- Ahn? – eu me surpreendi. Pelo visto eu sou a única orgulhosa na relação. Afinal, ainda existe uma relação?
- Mas parece que eu sou o único. Você está bem. Que bobo eu fui. Vir assim lhe dizer essas coisas. – ele levanta do sofá, já ensaiando uma despedida.
- Alê, espera. – eu tento impedir, sua já certa saída, com sucesso. Ele pára de ir em direção à porta.
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Ele não vai embora, como estava ensaiando. Apenas olha para mim de um jeito tão fofo que até perco as palavras.
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- Ahn... É... que... ahn... – meu Deus, fala alguma coisa, Vanessa. Diz que você o quer de volta. Diz para vocês nunca mais se separarem, porque senão você morre.
- Não precisa falar nada, V. Eu é que preciso me desculpar. Desculpa. Não deveria ter vindo aqui.
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Que adolescentes nós somos. Terminamos sem razão alguma. Com medo, talvez, de amar. E eu, orgulhosa que sou, não consigo falar o que quero.
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- Não precisa se desculpar. Foi bom te ver. – ahn?? não foi isso que eu quis dizer. Agora, com certeza, ele vai se despedir e...
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Vendo que ele estava indo na direção da porta, eu puxo automaticamente sua mão em um claro ato de desespero.
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-V, não faz isso. – ele me pede com uma expressão de sofrimento no rosto.
- Isso o quê? – eu não entendi.
- Não fica tão perto de mim assim, senão...
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Coloco o dedo indicador em seus lábios, impedindo-o de terminar sua sentença.
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- Eu também sinto sua falta. – eu, por fim, admiti, deixando o orgulho de lado. – Acho que a gente devia voltar. – eu completei.
- Sério?? – ele foi pego de surpresa. Eu sorri.
- Sério. Deixa só eu ver uma coisinha antes. – aproximo-me de seus rosto, dando-lhe um beijo. Sim, aquele beijo maravilhoso continua o mesmo. – É, definitivamente a gente devia voltar.
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Ele não me respondeu, só deu um leve sorriso e voltou a me beijar. Como é que eu consegui ficar uma semana inteira longe dele?? Às vezes, a recompensa de um orgulho ignorado não tem preço.
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- Como eu senti falta do teu beijo. - eu disse a ele.
- E como eu senti falta de tudo em ti.
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Ele voltou a me beijar.
posted by mente inconstante at 17:30

6 Comments:

Ah!!! Quero um namorado que beije maravilhosamente... Brincadeirinha XD
Linda...
Como sempre perfeito...
Estou ficando sem adjetivos para seus textos maravilhosos...
Amei!!!

Bjs

9 de janeiro de 2010 18:03  

Eu sinto falta disso. Sinto falta daquela conversa depois de cada briga. Dos olhares do tipo "O que será que ele tá pensando?". Nessas horas, isso faz mta falta
Bjus

9 de janeiro de 2010 23:19  

Simplesmente lindo!

Beijo

10 de janeiro de 2010 12:24  

Que orgulho hein?!nem te falo nada,mas que bom que uma hora ele é deixado de lado e ter simplesmente um novo começo melhor e com o orgulho totalmente de lado.

beijo

10 de janeiro de 2010 14:26  

que foooofo *-*'
é, as vezes o defenestrar o orgulho faz bem demais ;D
Até mais
:*

11 de janeiro de 2010 09:46  

Aii que história apaixonante. Adoro a sua maneira de descrever as situações. Sou capaz de ver as cenas todas.
Beijãoo

11 de janeiro de 2010 11:36  

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